O mundo é diferente da ponte pra cá

Atualizado: Mai 11


Fui numa roda de conversa na semana passada com quatro pessoas envolvidas na cena slow fashion em Porto Alegre. Minha amiga, que estava na roda, falou sobre como o trabalho dela buscava englobar a periferia no mundo da moda, já que, por aqui, conceitos como “minimalismo”, “veganismo” e “armário cápsula” (tão endeusados pela moda sustentável) são exercidos a muito tempo. Então, a mediadora faz a seguinte pergunta:

Como podemos levar o conceito de slow fashion para as zonas periféricas? Como vamos inserir eles na cadeia de produção?

E esse texto é uma resposta.

Eu cresci numa vila chamada “Elizabeth”, no Bairro Sarandi, periferia de Porto Alegre. E o que mais vi por aqui eram organizações entrando dentro da vila, fazendo ação social ou se beneficiando com a nossa realidade, e nunca mais entrarem aqui.

O Sarandi é um dos polos da moda aqui em Porto Alegre. A maioria dos meus amigos quando vão comprar tecidos, sempre me avisam, na esperança de um café. Muito vivi nessas lojas de tecidos e aviamentos, minha vó era costureira e eu sempre a acompanhava nas compras. Inclusive, por ter tanto comércio têxtil, o Sarandi desenvolveu muitas costureiras no passado e, hoje, temos algumas cooperativas. E é aí que o slow fashion portoalegrense encontrou uma oportunidade.

SLOW FASHION QUEM?

O slow fashion é um dos movimentos que surgiram a partir do slow food, proposto por Carlo Petrini em 1986, em resposta às redes de fast food. Os pilares do movimento eram o cuidado no desenvolvimento do prato, o respeito do tempo natural de preparo e o incentivo a produção local de ingredientes.

A partir disso, surgiram outros movimentos “slow” (como cidades, medicina, trabalho, etc) até chegarmos no campo da moda. O slow fashion se caracteriza por ser uma resposta a cadeia do fast fashion. Por isso, seus pilares são envolvidos com sustentabilidade. Dentro disso podemos caminhar por tópicos como consumo consciente, modelagem funcional, design atemporal, economia circular… mas eu quero falar sobre comércio justo.

Isso porque o movimento “fashion revolution” - uma das ramificações do slow fashion - surgiu pelo incidente em Bangladesh. Dia 24 de abril de 2013, ocorreu o desabamento do edifício Rana Plaza. Ele funcionava como centro comercial, onde várias fábricas de vestuário se alojavam. Os sinais e advertências sobre as rachaduras em seu interior foram ignorados. O desastre resultou em 1.133 pessoas mortas e 2.500 feridas. Por isso, o movimento tem como slogan a frase “quem fez minhas roupas?” para questionar justamente a produção de grandes marcas.

SE EU TIVESSE NA RODA, ESSA SERIA MINHA RESPOSTA:

Eu, como marginal e minimamente conhecedor do slow fashion, não sei até que ponto a periferia quer saber do movimento. Mas com certeza, ser parte só de cadeia de produção não é objetivo pra ninguém. A periferia merece (sim, merece) ser protagonista de algumas coisas que não só de incentivo social.

De qualquer maneira, o difícil não é trazer o “slow fashion” pra dentro da periferia. “Falar gíria bem até papagaio aprende” já diria Mano Brown. O desafio é facilitar o acesso a fontes de conhecimento e, principalmente, valorizar o potencial criativo da vila. As pessoas daqui são essencialmente criativas: eu posso te mostrar 1001 jeitos de fazer comida com farinha, água e fermento enquanto te mostro como aprendi a tingir minhas camisetas e pintar estampa nelas com tinta pra tecido. As pessoas daqui sabem se virar, e souberam através da experiência. Aqui sobreviver e resistir é rotina. Mas o grande problema é como colocar todos esses saberes em prática em outras áreas e como rentabilizar projetos periféricos.

Mas calma! Não é você, nascido no bairro Moinhos de Vento, que vai fazer isso. Dentro da vila, só fala quem é da vila, porque só entra quem é da vila. Busque por pessoas pontes: aquele que sabe as linhas de ônibus, que sabe o nome do mendigo da quebrada e quais ruas alagam em dia de chuva. E no final ainda consiga dialogar com pessoas de zonas centrais. Esse tipo de pessoa tem legitimidade para inspirar as pessoas daqui e trazer os recursos de lá.

No final você sabe. É “um por amor, dois por dinheiro”. Eu não sei até que ponto todas as empresas que erguem a causa da moda sustentável são verdadeiras. Só sei que ninguém é inquestionável. Por isso, nosso dever é, além de perguntar “quem fez minhas roupas?”, ficar em cima das empresas que levantam essas bandeiras.

Essas roupas são realmente genderless? Ou vocês colocam camisas masculinas em modelos mulheres?

Essa modelagem é realmente inclusiva? Que tipo de pessoa veste o teu GG?

Essa empresa realmente fala sobre consumo consciente? Por que está fazendo descontos no black friday?

E o mais importante: não subestimem a periferia. Nós já somos protagonistas e criativos(as). Vocês só precisam reconhecer isso ao invés de nos alocar no chão de fábrica.


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